Jolie escreve importante artigo sobre o direito das mulheres

Angelina Jolie

Nesta sexta-feira, dia 09 de Outubro de 2020, a renomada revista estadunidense, TIME, publicou um importante artigo escrito por Angelina Jolie – Enviada Especial do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR / ACNUR), editora colaboradora da revista e ganhadora do Oscar – através do qual a cineasta falou a respeito dos reflexos gerados pela pandemia do corona vírus sobre os direitos das mulheres, igualdade de gênero e violência doméstica. Confira a matéria traduzida na íntegra pelo Angelina Jolie Brasil.

Escrito por Angelina Jolie

“O último relatório do Secretário-Geral da ONU sobre a COVID-19 contém uma declaração assustadora: “Todos os ganhos com relação à igualdade de gênero podem retroceder várias décadas” em razão da pandemia. Os números pintam um quadro nítido de possíveis 2 milhões de casos adicionais de mutilação genital feminina até 2030, 13 milhões de casamentos infantis adicionais, mais 15 milhões de mulheres e meninas submetidas à violência de gênero a cada 3 meses de quarentena e mais 47 milhões de mulheres forçadas à pobreza extrema.

A perspectiva de “décadas” de progresso nos direitos das mulheres serem anulados pela pandemia é intolerável e deveria ser impensável. Já se passou mais de meio século desde que a Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas prometeu direitos iguais para todas as mulheres, embora os direitos, as proteções e as liberdades básicas ainda não existam em alguns países. Em outros, eles são construídos sobre bases tão frágeis que a pandemia parece ser capaz de eliminá-los.

Esses problemas não podem ser atribuídos inteiramente ao corona vírus. Embora o vírus tenha inflamado as desigualdades nas sociedades, ele não as criou. Os seres humanos – não as doenças – são responsáveis pelas leis, por sistemas injustos e pela desigualdade racial e social. O corona vírus é apenas a última desculpa para tudo o que não consertamos.

Mesmo antes da pandemia, que levou a um aumento chocante da violência doméstica, mais de três mulheres por dia, em média, eram assassinadas por seus maridos ou namorados na América. Globalmente, estima-se que uma em cada três mulheres chegou a ser espancada, estuprada ou abusada de alguma forma durante sua vida sendo que, na maioria dos casos, o agressor é um membro de sua própria família. Houve três vezes mais mulheres vítimas de homicídio doloso em 2017 em todo o mundo do que vítimas de terrorismo – e mais da metade delas foram assassinadas por um membro da família.

Vivemos em uma era de inteligência artificial e da computação quântica. No entanto, os direitos básicos das mulheres à educação, ao voto, ao controle sobre seus próprios corpos, à igualdade de proteção perante a lei, à igualdade salarial e à plena representação na sociedade, ainda são debatidos em termos que seriam conhecidos pelas primeiras defensoras dos direitos das mulheres, com muito da mesma velha misoginia impenitente, das desculpas gastas e da violência escancarada. Em nosso mundo, a existência de um hospital na República Democrática do Congo, amplamente dedicado ao tratamento de vítimas de estupro brutal – entre eles bebês e crianças – é considerada normal.

Menos de 1% de toda a assistência humanitária internacional vai para os programas de violência sexual e de gênero – um sinal claro de que a prevenção de tais crimes não é considerada alta prioridade pelos governos. As pandemias anteriores, como a do Ebola, mostraram que é provável que morram mais mulheres por falta de serviços que respondam à violência e às outras doenças do que pela própria pandemia, mas os esforços internacionais para atender às necessidades das mulheres vulneráveis continuam subfinanciados e sujeitos a reações políticas.

Em retrospecto, aceitamos ou nos parabenizamos pelo progresso nos direitos das mulheres que tem sido incremental, dolorosamente lento e facilmente reversível. A geração mais jovem – incluindo aqueles que votarão pela primeira vez nas próximas eleições nos Estados Unidos – não deve ser tão paciente ou aceitar compromissos.

A possibilidade de um retrocesso nos direitos das mulheres em todo o mundo deve provocar uma onda de raiva, preocupação e pressão sobre os governos visando garantir que eles não tolerarão este resultado injusto e perigoso. A contínua supressão ou reversão dos direitos das mulheres levaria a um mundo mais inseguro e dividido, com maior número de refugiados e maior conflito. É tanto uma ameaça aos nossos interesses como uma afronta aos nossos valores. As mulheres não deveriam ser as vozes principais nesta luta. Os homens devem tomar uma posição.

Isso não deve ser uma questão partidária. Ainda assim, surgiu como uma linha divisória na eleição presidencial que acontecerá no próximo mês. A Violence Against Women Act (VAWA – Lei da Violência Contra a Mulher) foi autorizada a caducar em fevereiro de 2019 e ainda não foi revalidada. Apenas Joe Biden se comprometeu com a revalidação da VAWA durante seus primeiros 100 dias no cargo, sendo que a América lidera a luta contra a violência de gênero em todo o mundo.

Mas precisamos mais do que um retorno ao status quo anterior à pandemia. Em casa, precisamos de um foco muito maior na segurança: a prevenção da violência doméstica, muito mais apoio e serviços para sobreviventes, incluindo crianças expostas à violência, traumas, e um sistema que forneça responsabilidade.

No exterior, os Estados Unidos e outros países poderosos devemos reconhecer as flagrantes inconsistências em nossa abordagem da política externa: nossa disposição de fechar os olhos aos abusos dos direitos humanos praticados por países aliados ou parceiros com os quais queremos fazer negócios, ou quando simplesmente decidirmos que nossas próprias prioridades políticas mudaram. Fazer isso torna muito fácil para os outros se esquivar de suas responsabilidades.

No Afeganistão, por exemplo, após uma invasão que justificamos, em parte, com base no tratamento dado pelo Talibã às mulheres e nas duas décadas de esforços em apoiar as mulheres afegãs em suas demandas por um lugar igual na sociedade, participamos conscientemente de um processo diplomático que marginalizou as mulheres afegãs. A América está administrando um acordo de paz que pode nem mesmo exigir que o Talibã garanta o direito básico de todas as meninas afegãs irem à escola, sem exceção. Direitos iguais deveriam significar exatamente isso, não direitos iguais apenas quando forem oportuno.

Não usar nossa influência para defender e promover os direitos das mulheres em um momento em que elas são ameaçadas seria trair os princípios fundamentais de nossa democracia. Também enviaria uma mensagem para as meninas em todos os lugares – já conscientes de terem crescido em um mundo desigual e injusto – que, embora pudéssemos ver seus horizontes se estreitando durante esta pandemia, não nos importamos o suficiente para tentar impedi-la.

Fonte: TIME

Tradução Angelina Jolie Brasil

 

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